Uma compilação dos principais
conceitos de Análise Transacional.
Compilado pela Força Tarefa em Análise
Transacional, da Comissão de Desenvolvimento da ITAA. Principais
conceitos - Claude Steiner, Presidente.
Translated by Anamaria Cohen Agosto de 2000
A Análise Transacional é:
- uma teoria psicológica de fácil
compreensão, ainda que sofisticada, sobre o pensamento, os sentimentos e
o comportamento das pessoas;
- um sistema de psicoterapia contemporâneo e eficaz;
uma análise educacional, organizacional e sociocultural e uma
psiquiatria social.
ESTADOS DE EGO E TRANSAÇÕES. As
interações entre as pessoas são denominadas
transações. Qualquer transação tem duas partes: o
estímulo e a resposta. As transações individuais
geralmente são parte de um conjunto maior. Alguns destes conjuntos ou
seqüências transacionais podem ser diretos, produtivos e
saudáveis ou podem ser indiretos, improdutivos e doentios.
Quando as pessoas interagem, elas o fazem a partir de
três diferentes estados de ego. Um estado de ego é uma maneira
específica de pensar, sentir e comportar-se e cada estado de ego tem sua
origem em regiões específicas do cérebro. As pessoas podem
comportar-se a partir de seu estado de ego Pai, de seu estado de ego
Criança ou a partir de seu estado de ego Adulto. As nossas
ações sempre advêm de um destes três estados de
Ego.
A. CRIANÇA. Quando estamos no estado de ego
Criança, agimos como a criança que já fomos um dia.
Não estamos apenas representando; mas pensamos, sentimos, percebemos,
ouvimos e reagimos como uma criança de três, cinco ou oito anos de
idade. Os estados de ego são estados do ser totalmente experienciados, e
não, apenas papéis. Quando a Criança é raivosa ou
amorosa, impulsiva, espontânea ou brincalhona denomina-se Criança
Natural. Quando está pensando ou é imaginativa, criativa
denomina-se Pequeno Professor. Quando sente medo, culpa ou vergonha denomina-se
Criança Adaptada. A Criança sente todas as emoções:
medo, amor, raiva, alegria, tristeza, vergonha, etc. Geralmente, a
Criança é responsável pela maior parte dos problemas das
pessoas, pois é auto-centrada, emotiva, poderosa e resiste à
repressão decorrente do crescimento.
Na Análise Transacional (AT), a Criança
é vista como fonte da criatividade, recreação e
procriação, a única fonte de renovação na
vida. A Criança pode ser observada nas crianças por extensos
períodos, mas também nos adultos, em situações onde
as pessoas têm permissão de liberar a Criança, como nos
eventos esportivos ou festas. A Criança aparecerá em breves
períodos em outras situações, tais como reuniões de
diretoria, salas de aula ou sérias discussões, onde não
é de forma alguma desejada. Pode dominar completamente, na sua forma
mais indesejável, a vida de uma pessoa, como nos casos de pessoas
emocionalmente perturbadas: confusas, deprimidas, loucas ou drogadas. A
Criança praticamente as levará à
auto-destruição, com comportamento descontrolado. A
Criança também pode aparecer por longos períodos, na forma
de depressão ou dor, como no caso de pessoas que sofreram uma grande
perda.
O PAI. O Pai é como um gravador. É uma
coleção de códigos de vida preconceituosos, pré
registrados e pré-julgados. Quando uma pessoa está no estado de
Ego Pai, ela pensa, sente e comporta-se como um de seus pais ou substituto. O
Pai decide, sem fundamentação, como reagir a
situações, o que é bom ou mau e como as pessoas deveriam
viver. O Pai julga a favor ou contra e pode ser controlador ou apoiador. Quando
o Pai é controlador denomina-se Pai Crítico. Quando é
apoiador, denomina-se Pai Nutritivo. Um estado de ego pode dominar uma pessoa,
chegando até a excluir os outros dois. Um exemplo disto é o Pai
Crítico ou Nutritivo exclusor, que ocorre quando uma pessoa é
incapaz de usar sua Criança ou Adulto. Esta pessoa ficará em
grande desvantagem, pois os três estados de ego devem estar
disponíveis, sempre que necessário, para o bom funcionamento do
ser humano. Com um Pai exclusor como o único estado de ego operante, uma
pessoa tem que viver sem o benefício de seu Adulto ou Criança,
sendo assim privada de dois terços de seu potencial humano. O Pai usa
velhos registros para resolver problemas, permanecendo, assim, 25 anos
atrás no tempo ( embora possa estar 250 ou 2500 anos atrás),
sendo útil quando não há informação
disponível no Adulto ou quando não há tempo para usar o
Adulto para pensar. A Criança, por outro lado, criará novas
soluções baseadas na intuição, mas essas
soluções não são tão confiáveis
quanto aquelas baseadas em decisões Adultas.
O ADULTO. Quando no estado de ego Adulto, uma pessoa
funciona como um computador humano. Opera, baseada em dados que coleta,
armazenando ou usando para tomar decisões, de acordo com um programa
lógico. Quando no estado de ego Adulto, a pessoa usa o pensamento
lógico para resolver problemas, certificando-se de que a Criança
ou o Pai não contaminem o processo. Poderemos, então, concluir
que as emoções não são boas? Isto somente significa
que, a fim de sermos racionais e lógicos, precisamos ser capazes de
separar-nos de nossas emoções. Não significa que ser
racional e lógico é a melhor maneira de estar todo o tempo. Na
realidade, da mesma forma que um Pai exclusor produz um ser humano incompleto,
um Adulto exclusor tem o mesmo efeito fatal nas pessoas. Pode-se também
objetar: "Eu sou um adulto e tenho emoções!" e está certo.
Ser maduro ou adulto não é o mesmo do que estar no estado de ego
Adulto. Crianças pequenas podem estar em seu Adulto e adultos bem
equilibrados usam seu Pai ou Criança todo o tempo. O Adulto computa
todos os dados com que é alimentado. Se os fatos estiverem atualizados,
então as respostas do Adulto serão oportunas e mais eficazes do
que a solução do Pai. Se os fatos estiverem incorretos, o
computador do Adulto produzirá respostas incorretas. Uma
função muito importante do Adulto é predizer resultados e
fornecer uma crítica fundamentada em fatos sobre a eficácia do
comportamento das pessoas na busca de seus objetivos. Esta função
crítica, fundamentada em fatos, é diferente da
função baseada em valores, do Pai Crítico. Algumas vezes,
o Adulto usa informações que têm sua origem na
Criança ou no Pai, e que podem estar incorretas. Isto é conhecido
como contaminação. Quando a contaminação procede do
Pai, é chamada de preconceito. Por exemplo, quando alguém
pressupõe que as mulheres preferem seguir a orientação de
um homem, em vez de tomar suas próprias decisões - estes dados
são enviados para o Adulto, a partir do Pai, sendo uma
contaminação, pois são aceitos como fatos, sem checar com
a realidade. A mesma aceitação de informação, sem
checar com a realidade, pode ocorrer com informações alimentadas
pela Criança, denominadas ilusões. Geralmente, uma ilusão
é fundamentada num medo ou esperança que é aceita como
realidade pelo Adulto. Por exemplo, quando uma pessoa está convencida de
que está sendo envenenada pelo governo, isto se baseia provavelmente nos
medos da Criança aceitos pelo Adulto, a despeito dos fatos. Um
procedimento extremamente importante em Análise Transacional é a
descontaminação do Adulto.
VOZES NA CABEÇA. Como você pode
lembrar-se, o estado de ego Pai assemelha-se a um gravador, repleto de
afirmações pré-julgadas, preconceituosas e
pré-programadas. Estas afirmações "gravadas" podem
permanecer ativadas, enquanto estamos em nosso Adulto ou Criança e,
assim, podemos realmente ouvi-las como "vozes em nossas cabeças". As
gravações parentais podem ser boas ou más, dependendo de
qual "Pai" está no comando. Em outras teorias da personalidade, as vozes
prejudiciais do Pai Crítico são conhecidas como o severo
superego, diálogo interno negativo, armadilhas cognitivas, baixa
auto-estima, protetor punitivo ou expectativas catastróficas. O Pai
Crítico pode fazer afirmações depreciativas, tais como:
"Você é mau, estúpido, feio, louco e doente, em suma,
você é um fracassado, Não-OK." O Pai Nutritivo ama a
Criança incondicionalmente e diz coisas do tipo: "Eu te amo",
"Você é um vencedor," "Você é inteligente",
"Você é uma princesa" ou "Você é linda". O Pai
Crítico algumas vezes controla a Criança, impedindo-a de
sentir-se bem a respeito de si mesma. Se a Criança deseja ser amada, o
Pai Crítico diz: "Você não merece". Se a Criança
deseja dar amor, o Pai Crítico pode dizer: "Isto não é
desejável". Se a Criança está insatisfeita num emprego
onde é mal remunerada, o Pai Crítico poderá dizer: "Isto
é o melhor que você pode conseguir, pois você é
preguiçoso". Se a Criança surge com uma nova idéia que se
contrapõe a antigos pontos-de-vista, o Pai Crítico poderá
responder: "Você deve estar louco por pensar dessa forma". O Pai
Crítico pode fazer as pessoas sentirem-se Não-OK e
forçá-las a fazer coisas que elas não querem fazer. Para
prevenir-se contra o Pai Crítico, as pessoas precisam aprender a
desenvolver o Pai Nutritivo, o Adulto e a Criança Natural. Por meio de
um egograma, podemos demonstrar as forças relativas dos estados de ego
de uma pessoa, a qualquer tempo. Isto é muito útil para diagramar
o modo como as pessoas mudam no decorrer do tempo; especialmente para verificar
como elas diminuem seu Pai Crítico e aumentam seu Pai Nutritivo, Adulto
ou Criança.
TRANSAÇÕES COMPLEMENTARES, CRUZADAS E
ULTERIORES. As transações ocorrem quando alguém se
relaciona com uma outra pessoa. Cada transação é formada
de um estímulo e de uma resposta e as transações podem
proceder do Pai, Adulto ou Criança de uma pessoa, para o Pai, Adulto ou
Criança de uma outra pessoa.
Transações Complementares e Cruzadas: Uma
transação complementar envolve um estado de ego de cada pessoa.
Numa transação cruzada, a resposta transacional dirige-se a um
estado de ego diferente daquele que emitiu o estímulo. A
comunicação entre duas pessoas pode continuar, quando as
transações são complementares. As transações
cruzadas são importantes porque interrompem a comunicação.
Seu conhecimento é útil, pois auxilia os analistas transacionais
a compreenderem "como" e "por quê" a comunicação é
interrompida. A regra é a seguinte: "sempre que ocorrer" uma
interrupção na comunicação, uma
transação cruzada a provocou". Um tipo muito importante de
transação cruzada é a desqualificação. Neste
caso, a pessoa, ao dar uma resposta, desconsidera completamente o
conteúdo de um estímulo transacional. As
desqualificações nem sempre são óbvias, mas
são sempre perturbadoras para a pessoa que as recebe e, quando
repetitivas, podem perturbar gravemente o receptor.
Transações ulteriores: As
transações ulteriores ocorrem quando as pessoas falam uma coisa e
querem dizer outra. As transações ulteriores são a base
dos jogos psicológicos, sendo especialmente interessantes porque
são enganosas. Possuem um nível social ( aparente) e um
nível psicológico (oculto, ulterior}. É importante
conhecer a diferença entre o nível social e o oculto pois, a fim
de compreender e predizer o que as pessoas farão, o nível oculto
fornecerá mais informação do que o nível aparente.
A razão pela qual falamos uma coisa, quando queremos dizer outra,
é que geralmente sentimos vergonha dos desejos e sentimentos de nossa
Criança ou de nosso Pai. Contudo, agimos segundo esses desejos e
expressamos aqueles sentimentos, enquanto fingimos estar fazendo uma outra
coisa. Por exemplo, podemos usar um sorriso de sarcasmo, em vez de uma
expressão direta da raiva ou, quando estamos assustados, podemos
contra-atacar, em vez de admitirmos nossos medos. Quando queremos
atenção ou amor, freqüentemente fingimos indiferença,
e temos dificuldade de dar ou aceitar amor. De fato, como nossas vidas
estão imersas em meias verdades e decepções, pode
acontecer de não sabermos mais o que nossa Criança realmente
deseja. Como também não podemos esperar que as pessoas sejam
totalmente honestas, nunca poderemos realmente saber se confiamos naquilo que
elas dizem. Os analistas transacionais encorajam as pessoas a serem honestas
umas com as outras e consigo mesmas, sobre seus desejos e sentimentos, em vez
de desonestas e dissimuladas. Desta maneira, as pessoas podem descobrir o que
elas necessitam, bem como pedir por isso e, se possível, como
consegui-lo.
CARÍCIAS. A carícia é o
reconhecimento que uma pessoa dá à outra. As carícias
são essenciais à vida de uma pessoa. Sem elas, dizia Berne, "a
espinha dorsal secará". Foi demonstrado que recém-nascidos
necessitam carícias físicas reais a fim de sobreviver. Os adultos
pode arranjar-se com menos carícias físicas, pois aprendem a
trocar carícias verbais: carícias positivas, como elogios ou
expressões de apreciação ou carícias negativas,
como julgamentos negativos ou depreciações. Assim, a troca de
carícias é uma das coisas mais importantes que as pessoas podem
fazer em suas vidas.
JOGOS. O aspecto fundamental dos jogos é que
eles são trocas desonestas e dissimuladas de carícias. Um jogo
é uma série repetitiva de transações ulteriores,
com um começo, meio, fim e benefício final. O benefício
final é uma vantagem oculta que motiva o jogador a participar do jogo. A
Análise Transacional tornou-se um modismo nacional, nos anos 60, devido
ao sucesso do livro de Eric Berne "Os jogos da Vida", que se tornou um
best-seller. Nesse livro, ele designou nomes atraentes ( "Agora te peguei",
"Chute-me", "Só estou tentando te ajudar") para diferentes jogos. Por
exemplo, quando Jane joga "Por que não...Sim, mas...", ela pede
conselhos para alguém, mas rejeita cada sugestão, de tal forma
que todos ficam exasperados. É o tipo de conversação que
ocorre repetitivamente, principalmente nos grupos de terapia. É indireta
e oculta: no nível social, parece uma conversação entre
uma pessoa no estado de ego Adulto, fazendo uma pergunta para uma ou mais
pessoas que também estão em seus estados de ego Adulto. O que a
torna um jogo, é que nenhuma das sugestões são realmente
aceitas. A razão para isto é que, a nível
psicológico, o mais significativo, o que está realmente
acontecendo é que Jane pode até precisar de conselhos, mas
precisa muito mais de carícias. Como estas carícias estão
sendo dadas de forma indireta, não são tão
satisfatórias quanto seriam as carícias diretas. Assim, o jogo
termina num clima de frustração.
BENEFÍCIOS FINAIS. Há três
diferentes níveis de benefícios finais dos jogos: 1- O
benefício final biológico dos jogos são as
carícias. Mesmo que os jogos terminem sempre mal, todos os jogadores
conseguem uma quantidade razoável de carícias, tanto positivas
quanto negativas, além do benefício de jogá-los. 2- O
benefício final social de um jogo é a estruturação
do tempo. As pessoas são capazes de preencher o tempo que, de outra
forma, poderia ser enfadonho e depressivo, com uma atividade excitante. 3- O
benefício final existencial de um jogo é a maneira como o jogo
confirma a posição existencial de cada jogador.
POSIÇÃO EXISTENCIAL. No processo de
desenvolver uma identidade, as pessoas definem para si mesmas, cedo na vida,
qual o significado de sua existência. Algumas pessoas decidem que
são OK e que terão uma boa vida, mas muitas outras decidem que
não são OK e que fracassarão de alguma forma. Esta
expectativa, baseada numa decisão de como será a vida, é
sua posição existencial. As pessoas podem sentir-se OK ou
não OK sobre si mesmas e sobre os outros, de modo que há quatro
posições existenciais: "Eu estou OK/ Você está OK";
"Eu estou OK/ Você não está OK"; "Eu não estou OK/
Você está OK"; e, finalmente, "Eu não estou OK/ Você
não está OK". Por exemplo, no jogo "Por que não...Sim,
mas..." a posição existencial de Jane é "não tem
solução", de tal forma que toda vez que o jogo é jogado,
reforça aquela posição e justifica a depressão
posterior. Os jogos são sempre jogados com responsabilidade e interesse
por todos que nele estão envolvidos. A fim de manter sua
posição existencial, Jane encontrará pessoas que
jogarão o jogo com ela. Todos os jogadores são igualmente
importantes e todos obtêm seu benefício final como resultado do
jogo. Ao participar do jogo, eles também acreditam que terminará
em fracasso. Eles desejam obter carícias, mas não ficarão
surpresos quando Jane rejeitar todos os seus conselhos e, como
conseqüência, sentirem-se deprimidos ou aborrecidos, provando a si
mesmos que realmente não podem ajudar as pessoas ou que as pessoas
não querem ser ajudadas, o que justificará seus maus
sentimentos.
A ECONOMIA DE CARÍCIAS. Um dos aspectos
danosos do Pai Crítico é que ele possui uma série de
regras que governam a troca de carícias (Não dê, Não
peça, Não aceite, Não dê a si mesmo). O efeito deste
conjunto de normas, chamado "Economia de Carícias" é que as
pessoas se impedem de trocar carícias livremente e cuidar de suas
necessidades de carícias. Conseqüentemente, muitos seres humanos
vivem num estado de fome de carícias e sobrevivem com uma dieta
deficiente de carícias, "de um modo semelhante às pessoas que
sofrem privação de comida" e despendem uma grande parte de seu
tempo e de seus esforços, tentando satisfazer sua fome. As
carícias positivas, também chamadas "carinhos quentes", como por
exemplo, apertar as mãos ou dizer "eu te amo", provocam na pessoa que as
recebe um sentimento de "estar OK". Também existem as carícias
negativas, que são as formas dolorosas de reconhecimento, como o
sarcasmo, o desprezo, um tapa, um insulto ou dizer "eu odeio você". As
carícias negativas fazem as pessoas que as recebem sentirem-se
Não-OK. Ainda que sejam desagradáveis, as carícias
negativas são uma forma de reconhecimento e evitam que a "espinha dorsal
seque". Por este motivo, as pessoas preferem uma situação onde
recebam carícias negativas, a uma situação de
ausência de carícias. Isto explica por quê as pessoas
parecem magoar-se intencionalmente em seus relacionamentos. Não é
porque "apreciem magoar-se" mas, ao não obterem reconhecimento positivo,
escolhem as carícias negativas dolorosas a não terem nenhuma
carícia. As pessoas podem aprender a trocar carícias livremente,
a abrir seus corações, a pedir e dar carícias sem vergonha
ou constrangimento. Diferentes carícias atraem diferentes pessoas e cada
um tem seus desejos especiais, secretos. Há diversos tipos de
carícias positivas: as carícias físicas e as verbais. As
carícias físicas podem ser abraços, beijos, segurar a
mão, carinhos fortes ou leves, sexuais, sensuais ou só
amigáveis, protetores ou levemente sedutores, etc. As carícias
verbais podem ser dadas com relação à aparência de
alguém: seu rosto, corpo, postura ou movimentos; ou a respeito da
personalidade de uma pessoa: sua inteligência, natureza amorosa,
sensibilidade ou coragem. De qualquer forma, as pessoas necessitam e merecem
carícias e se as pedirem, freqüentemente encontrarão outras
pessoas que possuem exatamente as carícias que elas necessitam e
estão dispostas a oferecê-las.
RITUAIS, PASSATEMPOS, JOGOS, INTIMIDADE, ATIVIDADE.
Há cinco formas de estruturar o tempo para conseguir carícias:
1.Ritual: é uma troca de carícias pré-estabelecidas e
estereotipadas. 2.Passatempo: é uma conversação que gira
em torno de um determinado assunto. Passatempos: são mais evidentes em
coquetéis e em reuniões familiares. Alguns passatempos mais
comuns são: O tempo (Como está calor!), Associação
de Pais e Mestres ( Quem levará a comida?), Esportes ( O que você
acha de tal time?), Drogas ( A maconha deve ser legalizada?) ou Quem
está se divorciando de quem ? 3. Jogos: são repetitivos,
séries de transações indiretas com a finalidade de obter
carícias. Infelizmente, a maior parte das carícias obtidas nos
jogos é negativa. Um jogo é um método ineficiente de obter
as carícias desejadas. 4. Intimidade: é uma troca direta e
poderosa de carícias que as pessoas anseiam, mas raramente conseguem,
pois a Criança sente-se ameaçada devido a experiências
dolorosas. A intimidade não é o mesmo que sexo, embora ocorra
freqüentemente no sexo. Contudo, o sexo também pode ser um ritual,
um passatempo, um jogo ou uma atividade. A atividade tem como resultado um
produto. Um bom trabalho resulta na troca de carícias como um efeito
adicional. Intimidade e atividade são as formas mais
satisfatórias de se obter carícias. Infelizmente, a intimidade
é difícil de ser atingida, pois as pessoas são
emocionalmente analfabetas; e o trabalho torna-se, geralmente,
insatisfatório, quando as pessoas trabalham em isolamento e não
obtêm reconhecimento por suas realizações. Ainda assim, as
pessoas recorrem a rituais, jogos e passatempos por serem mais seguros, embora
sejam formas bem menos satisfatórias de se obter carícias. Por
exemplo, um casamento pode ser uma série infindável e aborrecida
de rituais, passatempos e jogos. Freqüentemente, isto acontece quando
ambos os cônjuges vivem seus scripts de privação de
carícias, que impedem que os homens sejam íntimos e emocionais e
que as mulheres sejam capazes de usar seu Adulto para pedir e conseguir o amor
que desejam.
GRAUS. Os jogos podem ser de diversos graus. Por
exemplo, o exemplo acima do jogo "Por que não...Sim, mas..." é a
versão mais suave do jogo (primeiro grau), pois é relativamento
inofensivo. A versão mais grave (terceiro grau) pode ser jogada por um
alcoólatra que responde "Sim, mas..." a cada sugestão do Salvador
até o momento de sua morte. Os jogos de terceiro grau envolvem
lesão do tecido.
PAPÉIS. Pessoas diferentes representam
diferentes papéis nos jogos. Quando uma pessoa está pronta a
representar um dos papéis de um jogo, normalmente ela se
encontrará representando os demais. Há uma variedade de
papéis, mas os três básicos são: Perseguidor,
Salvador e Vítima, que podem ser diagramados num triângulo para
ilustrar o que acontece. Relações familiares, de casal, entre
amigos, no trabalho, nas escolas são baseadas nestes papéis.
TRIÂNGULO DRAMÁTICO. O triângulo
dramático pode ser ilustrado pelo Jogo da Adição. Neste
jogo, a pessoa dependente ao representar o papel de vítima da
adição, da humilhação, do preconceito, da
negligência médica e, até mesmo, da brutalidade policial
procura e encontra um Salvador. O Salvador representa este papel ao tentar
generosa e altruisticamente ajudar o viciado, sem certificar-se de que ele
está comprometido com o processo de abandonar as drogas. Após
muita frustração, o Salvador fica aborrecido e muda para o papel
de Perseguidor, acusando, insultando, negligenciando ou punindo o viciado.
Neste ponto, esta pessoa muda de Vítima para Perseguidor,
contra-atacando, insultando, tornando-se violenta e criando emergências
no meio da noite. O até então Salvador torna-se agora a
Vítima no jogo. Este processo de mudança continua indefinidamente
ao redor do Triângulo Dramático, como num carrossel. Para evitar o
triângulo dramático em psicoterapia, o analista transacional
estabelece um contrato no qual a pessoa afirma especificamente o que ele ou ela
deseja curar. Isto protege tanto o cliente quanto o terapeuta: o terapeuta
saberá exatamente o que a pessoa deseja, e a pessoa conhecerá o
que o terapeuta irá trabalhar e quando a terapia estará completa.
De qualquer forma, a melhor maneira de evitar o triângulo
dramático é não assumir os papéis de Perseguidor,
Salvador e Vítima, ao permanecer no estado de ego Adulto.
SCRIPTS. Os analistas transacionais acreditam que a
maior parte das pessoas são basicamente OK e somente estão em
dificuldades porque seus pais (ou outras pessoas adultas e que têm
influência sobre os mais jovens) as expuseram a injunções e
atribuições poderosas, com efeitos danosos a longo prazo. As
pessoas, logo cedo, chegam à conclusão de que suas vidas se
desdobrarão de uma forma previsível; breve, longa,
saudável, doentia, infeliz, feliz, depressiva ou aborrecida, bem
sucedida ou fracassada, ativa ou passiva. Quando a conclusão é
que a vida será má ou auto-destrutiva, isto é visto como
um script de vida. A matriz do script é um diagrama usado para ilustrar
os scripts das pessoas. Nele, podemos ver os pais e sua descendência e
podemos diagramar as mensagens transacionais- injunções e
atribuições- que levaram a criança a abandonar sua
posição OK original e substitui-la por uma posição
não OK, auto-destrutiva. Quando a vida é dirigida por um script,
sempre há períodos nos quais a pessoa parece estar evitando seu
destino infeliz. Este período aparentemente normal do script chama-se
contra-script. O contra-script está ativo quando o plano de vida infeliz
da pessoa dá lugar a um período mais feliz. Contudo, isto
é temporário e invariavelmente entra em colapso, dando lugar ao
script original. Para um alcoólatra, pode ser um período de
sobriedade, para uma pessoa deprimida com um script de suicídio, pode
ser um breve período de felicidade que inevitavelmente termina quando as
injunções do script tomam posse. Na matriz de José , um
viciado em drogas, podemos ver que a injunção do script
"Não pense, em vez disso, beba" dirige-se à Criança de
José, a partir da Criança de seu pai. Esta poderosa mensagem
influencia a vida de José dramaticamente, quando ele segue a
injunção de seu pai com relação às drogas em
vez do álcool, causando-lhe repetidos episódios de abuso da droga
através de sua vida, tanto na juventude quanto na idade adulta. A
mensagem do contra-script "Você não deve beber excessivamente"
motiva-o a fazer repetidos mas ineficazes esforços para abandonar o
abuso de drogas; esta mensagem dirige-se ao estado de ego Pai de José, a
partir do estado de ego Pai de seus pais. A mensagem do script: "não
pense, em vez disso, beba", vinda do estado de ego Criança dos pais para
o estado de ego Criança do filho tem mais influência do que a
mensagem Pai-Pai do contra-script para beber moderadamente; assim, as mensagens
do script geralmente prevalecem a menos que a pessoa mude seu script. Quando os
scripts não mudam, eles passam de geração a
geração, como "batatas-quentes", dos adultos para as
crianças, numa cadeia ininterrupta de padrões comportamentais
tóxicos e desajustados.
DECISÕES. Num ambiente familiar
saudável, os pais darão proteção incondicional a
seus filhos, a despeito do que eles possam fazer. Quando os pais tornam sua
proteção condicional à submissão da criança
a suas injunções e atribuições, os filhos
estarão propensos a desenvolver um script. Normalmente, as
decisões do script são conscientemente tomadas a fim de
acompanhar as injunções parentais, mesmo quando se
contrapõem aos mais legítimos interesses da criança. Neste
ponto, a criança troca sua autonomia pela proteção dos
pais para evitar a punição e a crítica. Esta
decisão envolve uma mudança da posição "Eu sou OK"
para a posição "Eu não sou OK". Também envolve uma
decisão sobre as outras pessoas, se elas são OK. Quando as
pessoas tomam tais decisões, podem precisar da ajuda de um terapeuta
para desfazer-se do script e começar a buscar um curso de vida
autônomo ou como afirma Berne: " Terminar este espetáculo e
colocar um novo a caminho". Quando os indivíduos são ajudados a
voltar a suas experiências precoces de infância, que os levaram a
tomar tais decisões e que foram necessárias a sua
sobrevivência física e psicológica, mas que os estão
prejudicando no presente, eles podem tomar novas decisões, ou seja,
redecidir comportar-se diferentemente para ter uma vida mais
satisfatória. É possível observar o script de uma pessoa
em breves seqüências de comportamento, chamadas mini-scripts, que
constantemente simulam e reforçam o script. O fato é que tudo que
acontece na vida mental e emocional de uma pessoa reflete-se em seu
comportamento. Desta forma, ao estudar as transações entre as
pessoas, os analistas transacionais são capazes de compreender as
razões de determinados comportamentos, ajudando-as a parar com os jogos
psicológicos, a mudar seus scripts e a conseguir o melhor de suas
vidas.
SCRIPTS TRÁGICOS E BANAIS. Alguns scripts
são trágicos e outros, banais. Os scripts trágicos
são altamente dramáticos, como dependência de drogas,
suicídio ou "doença mental". Os scripts banais são menos
dramáticos, mas muito mais comuns. São os melodramas da vida
cotidiana. Geralmente afetam grandes subgrupos de pessoas, como homens,
mulheres, grupos raciais ou adolescentes. As pessoas nestes subgrupos
são "scriptadas" a viver suas vidas sob determinadas diretrizes: no
passado, esperava-se que as mulheres fossem donas-de-casa amorosas e emotivas,
não tendo permissão para serem lógicas, fortes ou
independentes; os homens deviam ser lógicos, fortes, provedores,
não tendo permissão para serem infantis, medrosos, carentes ou
francamente amorosos. Um script de vida banal pode ir de mal a pior, quando
não se tem alegria, estando sempre endividado, cuidando sempre dos
outros e negligenciando a si mesmo. Espera-se que membros de certas
nacionalidades ou raças sejam espertos ou estúpidos, honestos ou
desonestos, bons atletas ou temerários ou frios, etc. Algumas culturas,
incentivam suas crianças a serem competitivas; desta forma, não
aprendem a cooperar e a viver umas com as outras. Outras culturas enfatizam
somente a cooperação e fazem com que as pessoas mais
individualistas sintam-se não OK. Estes scripts culturais podem atingir
populações inteiras de forma danosa.
DISFARCES. Um aspecto dos scripts é o
benefício final dos jogos: os sentimentos negativos que são
acumulados podem eventualmente explodir e conduzir a um desastre emocional.
Cada benefício final dos jogos, quando acumulado, pode justificar um
divórcio ou conduzir alguém ao suicídio. O fato das
pessoas criarem situações que produzem sentimentos negativos de
seu script, chama-se disfarce.
PERMISSÃO, PROTEÇÃO E
POTÊNCIA. A permissão é um tema muito importante da
Análise Transacional. É uma situação na qual o
educador ou terapeuta não tem que continuar reforçando o que a
pessoa decidiu fazer quando criança. Por exemplo, se foi dito a uma
pessoa, que agora se mostra muito tímida, "Não peça nada",
uma permissão seria pedir o que deseja ou necessita: "Peça
carícias, você as merece". Quando uma pessoa aceita uma
permissão que vai contra as exigências parentais e sociais, sua
Criança ficará muito assustada. Assim, a permissão
é uma parte muito importante da mudança. A proteção
é dada ou oferecida pelo professor ou terapeuta, preferencialmente com o
apoio de um grupo, a uma pessoa que está prestes a mudar seu script. O
terapeuta e o grupo oferecem proteção a alguém, quando
dizem "Não se preocupe, tudo sairá bem. Nós apoiaremos e
cuidaremos de você, quando estiver assustado(a)". A permissão e a
proteção aumentam a potência terapêutica de um
analista transacional ao introduzir o Pai Nutritivo na situação.
O uso do Pai e da Criança ( quando se faz alguma brincadeira durante a
terapia) torna o analista transacional mais eficiente do que o profissional que
usa somente um terço de sua personalidade e relaciona-se com os clientes
somente com seu Adulto.
CONTRATOS. Os terapeutas de AT trabalham
contratualmente, ou seja, fazem acordos sobre qual resultado específico
o cliente deseja. Os contratos típicos são "restabelecer-se da
depressão", "livrar-se de dores de cabeça", "parar com a
dependência do álcool", "ganhar um modo de vida decente" ou "tirar
boas notas". Enquanto uma grande parte pode ocorrer durante a psicoterapia, o
contrato terapêutico a longo prazo está sempre "no topo", como uma
meta diretriz do analista transacional. Ao mesmo tempo, o analista transacional
fará contratos a curto prazo, como tarefas de casa, com
relação à sobriedade, ao "não suicídio",
para ajudar os clientes a atingir inteiramente seus objetivos contratuais. Como
as pessoas nascem OK, parece lógico que, com uma ajuda competente, elas
possam retornar a sua posição original OK. A capacidade de estar
OK está aguardando em cada pessoa, pronta para ser libertada das
proibições do script. Os analistas transacionais sabem que, ao
esclarecer os contratos terapêuticos, dirigidos a seus objetivos,
analisar efetivamente as transações entre as pessoas, dando uma
poderosa permissão para as pessoas mudarem e protegendo-as de seus
medos, é possível para todos ter uma chance de tornar-se feliz,
amoroso e produtivo.
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